quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Longe de mim


 

Longe de mim
imaginar
imaginar-te,
como agora vivo,
vivendo a amar-te!

Longe de mim saber
que não sabia
que minha vida sem sabor
me reservava, ainda,
mais do que uma aventura:
o magnífico caminho do amor!

Longe de mim saber que um dia
os dias que para mim sonhei,
teriam mais cor e futuro;
e que se apagaria em mim a procura
(aquela que aos poetas, como eu, tortura)
e nos deixa desabitados de poesia...
no escuro...

Longe de mim saber que um dia no meu viver
eu seria parte da vida de alguém (que é vida minha)
e que meu acordar e meu anoitecer
não seriam da solidão moradia…
longe de mim saber,
longe de mim saber que um dia...

domingo, 27 de janeiro de 2013

Joias de basalto



Nas veias correm gotas negras de basalto
que aquecem mares versáteis e abonados
e no céu imponente vislumbramos o Pico alto
que embeleza os céus azulados.

Somos filhos de vulcão
aninhados em crateras e caldeiras,
e é perfumado, por currais de vinha, o nosso coração
e regados, de maracujá e ananás, os linhos ricos das bordadeiras.

Nossos olhos são lagoas, fogo e furnas
e do chão brotam Flores que tornam Graciosa a passagem
enquanto talhamos nas montanhas nossas casas e nossas urnas,
chegamos e partimos nos braços da maresia e da aragem.

Voa um Corvo que anuncia a nove vozes ímpares
a beleza destas terras, com seu cântico
e sobrevoa quedas de água e mares
trazendo notícias das belezas do Atlântico.

Dentro do peito guardamos as tradições e a fé
recebidas de herança, que transmitimos para o futuro,
a força de um espírito Santo e de uma Santa Sé
bordando trajes santos de ouro escuro.

Nossos braços são um Faial que enlaçam visitantes
num abraço apertado, assassino de saudades ;
somos passado, arquitectura, patrimónios deslumbrantes,
povo de simples requinte colorindo as cidades.

E nunca falta uma mão solidária e pão no alforge
para acolher quem parte chegando às nossas ilhas;
abraçamos os filhos como o mar abraça fajãs em S. Jorge,
viajamos no dorso de cachalotes …tantas milhas…

A poesia vive em nós e fazemos da tristeza um festejo
Que adoça a boca com goles de chá, que nos grita liberdade,
e ao abrigo dos encantos do teatro declamamos um gracejo
louvando aos céus graças da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

Contemplamos a graça dos raios dum sol de Santa Maria
que nos leva a viajar ao algar mais profundo
fazendo-nos encher de orgulho e alegria
por sermos pedraria viva, da mais bela joia do mundo.

As pedras da calçada das nossas ruas, vivas estão
e reproduzem o som das galochas na eira, das carroças e do moinho
e no rugir adormecido de cada vulcão
somos todos, lava sólida, em copos de vinho.

Adormecer ao som de cagarros dançarinos das encostas do mar
e sob a proteção do Arcanjo São Miguel,ver o dia chegar tão novo,
faz crescer a vontade de ver na terra germinar
o alimento que sacia a fome do nosso povo.

Hortências decoram caminhos, quais tapetes em dia de procissão,
fazendo das ilhas quadros das quais todos nós somos pintores,
que dependuramos delicadamente no coração
de todo aquele que quiser descobrir Açores!






                                       




terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sem pensar


 

Eu podia dizer que és o céu,
que és a lua iluminada;
podia dizer que és todo mel
ou onda de areia e água salgada.
Eu podia dizer em sorrisos ternos
que és o cintilar das estrelas brilhantes
ou fogo de tentadores infernos,
ou dizer que és o mais louco dos amantes.
Eu podia dizer que és cadeia de bem-estar
ou carrossel de louco prazer,
podia dizer que és poderoso como o mar
ou suave como o amanhecer.
Mas só dizer não me adianta,
meu ser precisa de te mostrar
que és o ser que o meu ser encanta
e ama docemente sem pensar.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Gritos da boca do teu amor




Sabes?

Quando eu chorava e dizia não ser nada?

Que tudo estava bem…

Minhas lágrimas gritavam o medo de te perder!

Sim, de te não mais ver, 
de ser presente na minha vida a tua ausência!



Sabes?

Cada vez que te disse:não fiques mais.

Quero que vás!

Quero que procures encontrar fora de ti o que te preenche.

Não estava a dizer para partires mas sim para te ouvires,

te encontrares dentro de mim.



Sabes?

Naqueles dias em que a procura do meu sorriso 
foi para ti o teu maior desespero;

a tua busca incessante…

Eu tentava alimentar-me das minhas lágrimas que me envenenavam

enquanto minha razão

me dizia não

e meu coração gritava sim!



Sabes?

Cada vez que a lua me visitou trazendo recados teus,

eu vi nela os teus olhos e os teus lábios sorrindo para mim.

Por entre o nevoeiro da tua negação

eu vi(firmemente)a tua verdade,

o teu sim!



Sabes?

Ainda tenho medo.

Ainda choro!

Ainda me atormento!

Porque ainda me recordo do teu olhar triste partindo,

do teu coração explodindo,

dos teus braços densos de desalento…

Sim.Ainda recordo a cama vazia!

Sim,ainda sei a dor, de ver a tristeza matando a alegria.

Sim,ainda as sinto debaterem-se;

Lutarem,

Matarem-me!



Sabes?

Ainda sabes, o sabor das despedidas?

O peso do vazio das mãos vazias?

Ainda te cheira a distância,

à minha fragrância,

ao sofrimento

de tentar matar por dentro

quem é nosso sangue e nosso ar?

Sabes,que fugir do que somos, 
do que sentimos,

torna-nos pedras de gelo, florestas mortas;

faz de nós humanos loucos

sem destino e sem alento,

e aos poucos já não sabes

se vives ou vais vivendo,

se amas ou não…

Diz- me se sabes, se estas batidas no teu peito

compassadas e cheias de agitação

são batimentos de sentimento e fulgor

ou são apenas o reflexo da tua respiração,

ou sabes se são gritos da boca do teu amor?