quarta-feira, 27 de março de 2013

Já fui palco


Já me disfarcei de palco
e de cortina
Já me gritei alto
e em surdina
Por tantas vezes tentei, deixar de ser e existir
Mas as vozes que em mim moram e me gritam
São como rajadas de vida que me agitam
E mandam-me prosseguir…

Já fui palco vazio
Quase morto
Peça sem aplauso, nem brio
Sobrado torto…

Mas as vozes que em mim se abrigam calmamente
São como rajadas de gente
Caminhando p’ra bom porto…

Já fui palco floreado
Coberto de palavras e emoção
Já fui texto encenado
E era eu (tudo) o que trazia no coração.

Mas as roupas que vestia, despiam-me
E as palavras que proferia, feriam-me
Julgava–me eu camuflada...

Já fui palco,
Cortina,
Peça encenada…

Já despi as mágoas e o preconceito
E fiz das lágrimas de sal e sangue: mel e doce.
E jurei convictamente à vida, por mais amarga que ela fosse
Adoçá-la com as gotas de verdade que trago no meu peito.

terça-feira, 26 de março de 2013

A chuva que cai




Esta louca chuva que cai

Gelada

Não me dá nada;

Leva com ela as lágrimas coladas na janela,

Lava as pegadas dos nossos pés…

A chuva que cai

Leva–me como uma rajada,

Em rodopio,

Arrastada…

Molha meus sonhos

E faz deles barcos abalroados de papel…

E cai…

…Cai,

Desfazendo o azul do céu

Aumentando o mar

Cobrindo os corpos de barro

E desalento…

E desafia

Descaradamente as rajadas do vento…

A chuva que cai

Leva-me em gotas pequenas

Semeando-me nas montanhas e nas ribeiras,

E nasce, do céu, como se fossem açucenas,

Regando tudo como se tudo fossem árvores e flores

Esta chuva que cai

Bate as asas

Tão depressa

Que apenas nos sentimos

Leves

como as penas dos mais esvoaçantes Açores.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Recado


                                           
Como é bom beijar-te
entre as gotas geladas de chuva (que caindo vão)
e cheirar-te
entre suaves apertados toques da tua mão...

como é bom ver-te chegar,
ver-te sorrindo...
e ouvir dentro de mim meu coração gritar
o que está sentindo...


domingo, 17 de março de 2013

(In) quieta


Acredito que desta noite faremos um dia;

E que desta lua faremos um sol imenso;

E destes troncos um jardim de magia,

Desta brisa, aromas de incenso



E destes corpos, regatos;

E do suor água pura;

E das nossas colinas, matos;

Das diferenças, ternura…



E em beijos escreveremos poesia,

Que vai pintando a voz de rebeldia,

Enchendo-nos a boca de doce de azália

E (in)quieta a inspiração vai calma

Despertando os desassossegos da alma

Gritando verdades de Natália.



Que os nossos gritos são independentes

E a nossa força é a verdade

E só se formos honestos, educamos os descendentes

A preservar a humanidade!


sexta-feira, 15 de março de 2013

Tanto…

                                                  
Ainda tenho para dizer-te tanto
mas nem sempre as palavras esvoaçam na minha boca
porque sei que não basta amar-te tanto,
a vida às vezes parece andar louca...

... e faz de mim um cavalo de batalha
e leva-me arrastada por aí
deslizando em passos leves no gume de uma navalha
ferindo-me a mim... defendendo-te a ti…

Ainda tenho que tocar-te tanto
mas nem sempre te encontram as minhas mãos
porque sei que não basta querer-te tanto,
a vida às vezes caminha em passos vãos…

... e faz de mim um pássaro ferido
e leva-me devagar por aí
deslizo sem asas como se tivesse vivido
ferindo-me a mim... defendendo-te a ti…

segunda-feira, 11 de março de 2013

Beijo

Eu sonhei tantos beijos entre nós
e imaginei que a tua boca jamais me magoaria
e que seria sempre a voz
que te guiaria
sonhei ser o teu tesouro valioso
a tua alegria...

eu sonhei ter contigo
a calma das águas das lagoas escondidas
e o aconchego de um porto de abrigo
sonhei as entregas apaixonadas e desmedidas
desejei nunca mais saborear o perigo
de engolir lágrimas vazias...

eu fiz do meu corpo a tua fortaleza
do meu pensamento a tua oração
dos meus dias, fiz-te a minha certeza
ambicionei ser o outro lado da tua mão
mas não sei viver regando com tristeza
meu apaixonado coração...

este verso é um beijo distante
que sonhei dar-te e não te alcancei
nada apagará em mim o teu cheiro, meu amante
o homem com quem toda a vida sonhei
e que entrou em meu olhar vibrante
lendo todas as lágrimas frias que já chorei...

sexta-feira, 8 de março de 2013

Palavras do coração




Que a mulher saiba sempre costurar laços
E seja fonte de sabedoria e porto de abrigo
Que saiba fazer dos recantos dos seus braços
A força do conforto, o colo amigo!

Que a mulher seja menina, mãe e amante
E saiba ser ternura, cuidado, firmeza
Que construa um futuro brilhante
Sempre com dignidade, devoção e beleza.

Que a mulher nunca deixe de sonhar
e cuidar daqueles que ama incondicionalmente,
que ensine este mundo, a melhor, amar
com doçura … delicadamente.

Que a mulher saiba honrar quem no passado
Padeceu com o preconceito e a discriminação
E que a cada dia leve longe o seu legado
Que é trazer sempre na boca, as palavras do coração!

terça-feira, 5 de março de 2013

Do outro lado da janela


                    
 
Do outro lado da janela

Vejo movimentos de uma alma bela

Que caminha sem desistir

Que luta com toda a sofreguidão

Com todo o poder do coração

Tentando uma vida doce construir.



Do outro lado da janela vejo


Um corpo de homem (que desejo),

Que seja meu, até ao meu último suspiro

Vejo na força camuflada dos seus braços

O veludo confortável dos seus abraços,

O calor do corpo amante que eu admiro.



Do outro lado da janela há uma porta


Abrindo caminho a uma vida que já foi morta

Mas que lutando reergueu-se, ressuscitou,

E nem com todos os ventos e trovoadas

Deixou arrastar seu coração para estradas

Obscuras, onde o demónio já andou.