terça-feira, 16 de agosto de 2016

O teu livro não tinha miolo





O teu livro era uma capa
de fachada
azeda, mal acabada.
Era feito de um material
duro
e usado
com um papel vazio
escrito num doloroso passado
sufocante
e sem futuro…

O teu livro não tinha miolo
não era cativante
misterioso
apaixonante
era escrito por um interior sombrio
mentiroso
com fastio …

O teu livro não tinha miolo
parecia um catálogo de carros velhos
despedaçados
sem motor
o teu livro tinha tanto, mas tanto bolor
era um livro desinteressante
stressante
sem vestígios saudáveis do amor…

O teu livro parecia uma montagem de encomenda
e tu sem rumo
num desgastante consumo
corrias perdido nesta senda
às cegas
pelo mundo…

Arranquei-te da tua prateleira
tirei-te a venda
e transformei o teu livro
num livro novo de poesia
que transbordava inovação
magia
emoção
um livro romântico
cheio de prazer
um livro com vontade de viver,
de construir novas histórias.

O teu livro não tinha miolo
era um verdadeiro desconsolo…

Hoje a história mudou
o teu olhar brotou
e nas páginas do teu livro
há agora cor
alegria
amor
poesia…

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Todo meu


Não te roubei,
apenas te encantei.
Quem não fica interessado
num ser tão raro e inspirado?

Não te roubei.
Te apaixonei!
Levei-te à morada da felicidade
mostrei-te o amor de verdade.

Não te roubei,
apenas te ressuscitei.
Havias adormecido
vivias sem sentido.

Não te roubei,
apenas te amei.
Levei-te em viagem ao céu
e agora és todo meu!

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O meu vestido de renda


Vesti para ti o meu vestido de renda

com janelas para a minha pele hidratada
fazia de mim uma prenda
pronta a ser desembrulhada…

Vesti para que os teus olhos olhassem
as minhas curvas corporais
e os teus pensamentos te levassem
a recantos meus: vivos, carnais…

Vesti o meu vestido e calcei o sapato de salto
maquilhei o rosto, e os lábios decorei , 
e elegantemente percorri o asfalto
segura pela tua mão, que com a minha entrelacei…

O meu vestido de renda despertou a tua ambição,
desejaste ser renda e vestir a minha cútis
e cobrires de elegância o meu coração
pulsando em mim a cada segundo, sendo feliz.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Lonjura


E a cada segundo que passa
aumenta minha amargura
meu coração tolo estilhaça
com a realidade desta lonjura
pois quem longe está, não nos abraça
nem nos enche de ternura…

Sigo minhas obrigações
alimento as minhas vidas inquietas
e guardo as minhas emoções
nas minhas inacessíveis gavetas
e aos poucos matam-me as ilusões
que vou tornando secretas…

E a cada segundo que passa
sinto ainda mais solidão
sinto ser a eterna traça
à espera de transformação
sendo quem a todos abraça
sem receber consolação…

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Distimia


Uma dor sem rosto
uma tristeza constante
que levava o calor de agosto
deixando a luz da  noite distante…

Era uma dor fria, cascata de choro
um desistir persistente
uma ave de mau agoiro
um organismo doente…

Fazia as asas arrastarem-se pelo chão,
voar era algo impensável
os músculos perderam a capacidade de ação;
tudo era detestável…

Só lágrimas e gemidos
só escuro e dor
jardim mortos e destruídos
ansiedade, insegurança e pavor…

Era triste e denso
o nascer de cada dia,
um sofrimento imenso:
distimia…