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Baú de mãe

Este descomunal gelo que sinto
cessa – me dolorosamente a circulação,
deixando meu sangue sólido e extinto,
sem percurso para atingir o coração!


Abri demoradamente o meu baú de mãe,
aquele que guardava a lembrança,
do ser que sendo meu não é de ninguém
que eu gerei e vi nascer criança!


Porque é doloroso ficar sem ver
quem se ama e é razão de vida,
mesmo com a certeza que continua a viver
é degradante a dor da partida!


Remexi o baú em grande agitação,
com o intuito de querer encontrar,
as asas do meu filho, guardados com o coração
e que lhe devolvo agora para ele voar!


E do alto da montanha com impulsão
demonstrando coragem, incentivando,
estará sangrando meu coração…
e eu sorrindo,com a hora de seu regresso ansiando!

Testamento

Amanhã quando o sol nascer e beijar com raios tua porta, poderei eu já não viver, parei de respirar, estarei morta…
Quero então fazê – lo, para tal deixo escrito, já que em vida não pude dizê – lo, agora morta ainda grito!
Passei dias em conflitos em luta mesmo comigo, tentando deixar de amar teus olhos bonitos, e de amar – te bem mais que a um amigo…
Quero gritar bem forte, sem pudor e sem respeito, pois perdi tudo, ganhei a morte, levo – te dentro do peito…
Levo guardados os beijos ternos, os de loucura, de carinho, de paixão, levo as mágoas, as ausências, os infernos fruto das saudades que feriram meu coração!
Quando me cremarem e o corpo extinguir, quero misturar – me na atmosfera, podendo ser ar e voltar a surgir, dentro de ti em primavera!
Se esta noite meu coração parar, por mazelas, por cansaço, por dor, que fiquem a saber que hei – de te amar a cada teu respirar amor!

Diversidade

Entre todos os animais da Terra,
és tu Homem, humano, dito racional,
aquele que se revê nos meandros da guerra,
que mata, humilha, destrói … é brutal!


De todas as línguas, dialectos, linguagem,
possuis a palavra como dom de entendimento,
mas não entendes o outro à tua imagem,
causas órfãos, fome, sofrimento…


Usas todas as armas que o mundo criou
incluindo as que a terra lavra,
esqueces a melhor que Cristo deixou,
a que voa livre… a palavra!

Entre toda a diversidade existente,
pretendes sobrepor – te aos demais,
esqueces que o outro também é gente,
embora singulares somos todos iguais!

Homem!? Que fazes?
Embriaga–te em educação,
leva ao mundo as pazes
liberta o humano em teu coração!

Ouve… medita…escuta…
Aceita para seres aceitado,
olha o mundo com beleza, sem luta,
lembra-te,ele não é nosso é emprestado!

Abismo

Eu estou como o dia, cinzento … nublado… abatido… Escondeu – se meu sol, minha alegria, o arco - íris já não é mais colorido!
Eu estou como a tristeza, magoada… ferida… isolada… Já se esvai em mim a certeza, de querer continuar viva, em caminhada!
Eu estou como um abismo, profundo… desconhecido … escuridão infinita… Eu sofro por sentir em mim violento sismo, que me destrói … agita…
Eu estou… destruída, como uma velha casa assombrada, abandonada pela vida… Não quero viver! Não quero mais nada…

Tuas mãos

Nas tuas mãos, eu sou água cristalina! Nas tuas mãos sou fogo escaldante! Nas tuas mãos sou uma menina, uma leoa, uma louca, um diamante…
Por tuas mãos, sigo sem medo. Por tuas mãos o olhar é dispensado. Em tuas mãos, deposito meu segredo, minha vida, meus sonhos, meu coração acelerado…
As tuas mãos são regadores! As tuas mãos, são a força do solo, são jardineiros colhendo minhas flores que desabrocham ferozmente em meu colo!
Em tuas mãos, sou leve pluma. Em tuas mãos sou viçoso malmequer! Em tuas mãos sou o mistério da bruma, vestido em meu corpo de mulher!

Eu

Sou uma ideia, um projecto, sou uma busca, uma esperança, sou um zigoto, um embrião, um feto, sou uma placenta, sou uma criança! Sou um útero! Sou uma contracção! Sou aprendiz, sou descendente; sou intensa, sou dilatação. Sou um parto! Sou gente! Sou tempo ,horas, dias, anos… Sou uma estrada direita, sou humana, sou de enganos, sou uma mulher já feita! Sou dor, sou ferida, sou cansaço! Sou geratriz, sou robustez. Sou a calma, sou a excitação, o abraço, sou a fonte, o seio, a nudez! Sou pensamento, sou lágrima, sou alegria! Sou porto, sou margem, sou céu, sou uma ruga, uma variz, sou uma estria, sou real, sou vivida, um verso, sou eu!



Adeus

O sol que brilha lá no alto Traz o gosto de verão, espalha calor no asfalto, incendeia – me o coração!
Meu coração incendiado como uma bola de neve, que absorve o que lhe é dado ainda que gigante é sempre leve!
Leve brisa nos cabelos meus que escondem lágrimas que caem são como mãos dizendo adeus àqueles que da nossa vida saem!
Saem, seguindo outro trilho, outro filme,outra cena deixando na nossa vida um filho, que nos lembra, que ainda assim valeu a pena!