Já fui palco

Já me disfarcei de palco e de cortina Já me gritei alto e em surdina Por tantas vezes tentei, deixar de ser e existir Mas as vozes que em mim moram e me gritam São como rajadas de vida que me agitam E mandam-me prosseguir… Já fui palco vazio Quase morto Peça sem aplauso, nem brio Sobrado torto… Mas as vozes que em mim se abrigam calmamente São como rajadas de gente Caminhando p’ra bom porto… Já fui palco floreado Coberto de palavras e emoção Já fui texto encenado E era eu (tudo) o que trazia no coração. Mas as roupas que vestia, despiam-me E as palavras que proferia, feriam-me Julgava–me eu camuflada... Já fui palco, Cortina, Peça encenada… Já despi as mágoas e o preconceito E fiz das lágrimas de sal e sangue: mel e doce. E jurei convictamente à vida, por mais amarga que ela fosse Adoçá-la com as gotas de verdade que trago no meu peito.